Espero eu. Na 5ª feira quando fui buscar o Afonso a professora quis falar comigo. Vão pô-lo na sala dos 4 anos, aqui chamada "Reception Class". Ele estava numa turma de ESL (English as a Second Language) em que iria obter as bases da língua para depois ir para a turma a que corresponde a idade dele. O problema (e eu vi logo que isto poderia acontecer) é que, no curriculum inglês as crianças entram para o primeiro ano com 5 anos. E é suposto que nesse primeiro ano já saibam ler e escrever. Ora em Portugal o Afonso iria começar este ano o ensino pré-escolar; só aí teria as bases que de acordo com o plano inglês já deveria ter. Assim, em vez de o avaliar pela idade, avaliaram-no pelas competências demonstradas naquelas matérias que para o ensino deles é relevante. Para mim foi um alívio, porque como se não bastasse ter de se adaptar e aprender a nova língua, ainda seria colocado numa turma em que dificilmente iria conseguir acompanhar os outros miúdos, que já sabiam à partida ler, escrever e falar inglês com fluência. No ano de adaptação isto ia ser muito "pesado" para ele. Ele também deve ter ficado aliviado. Nesta turma vai ter o ambiente de "jardim de infância" a que está habituado e acho que vai poder aprender muitas coisas de uma forma mais descontraída.
Tudo a postos, uniforme pendurado e pronto a ser vestido, a lancheira pronta para receber a comida, a pasta pronta para levar e de repente aparece uma febre e desarranjo intestinal a adiar os planos de regresso às aulas...
...Dos pais que vão para as reuniões de pais dizer que os seus filhos são os mais inteligentes da sala. Sem ofensa para os outros pais, claro.
A Francisca muda de escola em Abril, para grande contentamento do irmão. E dela também. E meu. E do pai.
O grau de pirosice aguda está a subir em flecha. Na sexta-feira uma das actividades da Francisca foi "fazer unhas de gel". Mais umas quantas destas e acho que me passo. É que as senhoras nem sabem que eu ando desejosa para ver o efeito MEM na Francisca.
Acho que inscrevi a miúda na Academia Infantil das Rutes Marlenes desta vida e não sabia...
MEM - Movimento Escola Moderna
É a pedagogia utilizada na escola do Afonso. É assente em pressupostos diametralmente opostos aos da escola tradicional. Baseia-se num modelo de educação democrática e participada. As crianças são parte activa na sua aprendizagem e são chamadas a decidir (sempre orientados pelo educador ou professor, claro) sobre vários aspectos do seu dia-a-dia. Estabelecem objectivos e gerem o seu tempo de acordo com eles. Durante uma semana, por exemplo, podem escolher quais os dias em que vão fazer as actividades que estão planeadas e podem, com alguma flexibilidade, organizar e gerir o seu tempo da maneira que mais lhes convenha. No fim da semana têm uma reunião (a reunião do conselho) em que avaliam a semana que passou. Identificam o que correu melhor, o que correu pior e fazem propostas de melhoria para a semana seguinte. Além disso, sempre que trabalham em algum dos projectos que escolheram (o Afonso tem o projecto dos dinossauros, claro), apresentam o trabalho aos amigos. Têm também atribuições e tarefas diárias (organizadas semana a semana, nas reuniões do conselho). As tarefas passam por coisas como: organização da biblioteca, organização do refeitório (contar os amigos e pôr os talheres nas mesas), preenchimento do quadro da meteorologia, garantir que o quadro das presenças está actualizado, verificar se as casas de banho ficam em condições depois dos momentos de higiene (informando os adultos se alguma coisa estiver mal, para que seja corrigida), ser o presidente do conselho (consiste em orientar a reunião do conselho, dando a vez aos que querem falar e dirigindo os assuntos). São muito incentivados a raciocinar criticamente, procurando informação em meios como a internet, brincam que se fartam no meio disto tudo. Aprendem a sério, a brincar.
O que o Afonso ganhou em autoestima, autoconfiança, alegria e desenvolvimento intelectual nestes poucos meses faz-me pensar que andámos a perder tempo precioso no ano passado.
Apesar dele dizer que quer ficar comigo em casa quase todos os dias, vejo-o feliz e integrado como nunca o vi o ano passado. Com amigos e amigas que gostam dele e com quem ele gosta de brincar e conviver.
Saiu-me meia tonelada de cima dos ombros.
A Francisca agora está sempre a dizer que nos põe de castigo sentados na despensa. O que é estranho, porque cá em casa nunca lhe dissemos isso...Vou ter que ir perguntar na escola o que é que se passa... Será que eles põem os miúdos de castigo na despensa? Juntamente com os detergentes e desinfectantes e essas coisas tóxicas todas? Ou será que só os ameaçam, a ver se pega??
Para qualquer uma das opções, valha-nos Nossa Senhora, que isso sim, seria um sarilho que nem Alá imagina!
Senhoras da creche da Francisca: deêm a ouvir às nossas crianças outras músicas que não o Fantasminha Brincalhão e outra lixarada de música electrónica para crianças. É que não se aguenta.. Qualquer dia põem os míudos a ouvir a pirosa da Lucy, não? Se a miúda me chega a casa a entoar alguma coisa parecida com as músicas da Lucy temos o caldo entornado. A sério. I mean it.
Prometem-me transformar os meus filhos nos "líderes de amanhã", dar-lhes (vender-me) uma "Educação Enriquecida", baseada em "tecnologia de ponta", com um método educacional em "zig-zag". Estimulam-lhes o "desenvolvimento cerebral através de:
E eu, no entanto, tenho dúvidas... Mas tenho que reconhecer que técnicas de brainstorming aos 4 anos é muito à frente...
O primeiro dia correu bem; esteve contente e bem disposto. Chegou a casa e disse que gostava da escola.
Estou meia tonelada mais leve.
Que por acaso até é o acontecimento mais importante do dia: o Afonso começou hoje na escola nova.
Já me ligaram de lá a dar o feedback da primeira manhã: estava bem disposto, no jardim, e já começou a brincar com os outros meninos.
A Francisca também começou, mas com essa a história é outra: é que ela chega e transforma-se na raínha da festa. Toda a gente quer dar beijinhos e abraços à minha florzinha. É uma azáfama tal que a miúda nem sabe para onde se virar, de maneira a poder responder a todas as solicitações.
Um destes dias, no meio de uma cantoria, o Afonso sai-se com este refrão:
"Viva, viva, viva, (não sei quê não sei que mais), MORRA, MORRA, MORRA (não sei quê não sei que mais)!
Morra, morra, morra? Pensava que ele tinha andado um ano num colégio católico, pelos vistos devo ter andado enganada...
Ele já se esqueceu um bocado deste ano que passou. Não sei se é por estar de férias (também será, com certeza), mas noto-o muito mais feliz do que nos últimos meses. Espero que a felicidade se mantenha com a nova escola
Amanhã é o último dia do Afonso naquela escola.
Estou tão contente que até fiz um bolo para o último lanche dele e dos meninos da sala dele!
Aqui há dias aconteceu esta conversa interessante entre a auxiliar da sala do Afonso e a minha pessoa:
- Olhe, mãe, o Afonso não tem bebido leite nenhum ao lanche. Se calhar vai ter que lhe começar a trazer leite de casa.
- Mas porquê, o leite mudou ou aconteceu alguma coisa?
- Ele recusa-se a beber leite com chocolate...
- Pois recusa, ele detesta chocolate.
- Ainda tentámos que ele bebesse, mas ele cuspiu o que tinha na boca e não insistimos mais!
- Mas porque é que insistiram se ele estava a dizer que não gosta? Além do mais, não é lá muito saudável habituarem as crianças desta idade a beber leite com chocolate.
- Pois, mas muitos não gostam do sabor do leite em pó e então põe-se um bocadinho de chocolate para disfarçar
- Ah, o leite que eles bebem é em pó - disse eu, provavelmente já um bocado amarela com a conversa e a imaginar o fantástico que deve ser beber leite em pó e comer uma carcaça sem nada, ao lanche. Sim, porque de há uns tempos para cá acabou-se o queijo (deve sair muito caro) e só há manteiga para pôr no pão. Como o Afonso não gosta da manteiga (que deve ser margarina daquela tipo becel, mas em versão rasca) come o papo seco (literalmente seco).
- Então a solução é fácil, - digo eu - basta pedirem na cozinha para não pôr chocolate num dos copos!
- Ah, isso já não sei se é possível... O melhor mesmo é falar com a educadora.
- Ok, então eu falo (aqui já devia ter passado do amarelo para o verde)
Lá vou eu...
- Blá, blá, blá, chocolate no leite, blá, blá, blá, é só pedir à cozinheira para não pôr, blá, blá, blá, ele não gosta mesmo, não vale a pena insistir.
- Ah, mas era melhor trazer o lanche de casa, blá blá blá
- Já lhe disse porque não o faço, isto e aquilo, não acho possível que isto seja um problema, tratando-se ainda por cima de uma coisa que não é fundamental para o crescimento deles (é que já parecia que eu estava a dizer para não lhe darem legumes ao almoço e que ele só podia comer fritos!)
Conversa volvida, senti-me uma extraterrestre, mas o miudo no dia a seguir lá conseguiu beber o leitinho em pó simples (blarghh) com o papo seco (seco mesmo).
Será que Julho ainda demora muito a chegar???
a horta já tem direito a etiqueta e tudo
futebol mas só porque estamos em alturas