Hoje pela fresca lá fui à minha vida. Os meus planos matinais passavam por ir à boutique Nespresso cá do sítio, que por acaso também é o único sítio que conheço onde se vende carne de porco.
Estão a ver a boutique da Rua Garrett, cheia de glamour e sofisticação? Não tem nada a ver. Aqui a boutique não é boutique e fica nos fundos de um supermercado (ainda depois da secção quase ilícita da carne de porco). Esse supermercado tem o sugestivo nome de Al-Jazira. Pois dizia eu que lá fui comprar as benditas cápsulas e lá chegada não havia nem uma capsulazinha de Ristretto. Pergunta normal: quando as receberão? Aqui começa o problema. Fazem 4 ou 5 chamadas telefónicas.Entre risinhos nervosos dos indianos que não me sabem responder, o ar encavacado da senhora árabe que está naquela sala indescritível onde se vende o café e o semblante incompetente do senhor árabe que deve ser o responsável do supermercado, lá me dizem que vão receber um stock desse lote de café em Abril (sem se comprometerem que seja tão cedo). Perguntei se não era possível encomendar mais cedo. Dizem-me que não. E porquê? Perguntam vocês e perguntei eu. Porque o representante da Nespresso no Bahrain tem cápsulas Ristretto em stock mas a data de validade delas termina em Março. Assim só em Abril é que encomenda mais. Eu não percebo nada de gestão de stocks, mas acho que quem me dá uma resposta destas também não. Então disponibilzaram-se a entregar-me em casa o café, desde que comprasse 200 cápsulas com validade até Março. Digo que não quero. Até Março não bebo 200 cafés. Ficam os três a olhar para mim e eu a olhar para as três aventesmas, num momento de impasse silencioso. Digo que acho inaceitável que não possa comprar o café que eu quero, na quantidade que eu quero e que não saio dali sem uma solução.
Após outros quatro telefonemas dizem-me que afinal posso ligar para o representante da Nespresso e ele entrega-me em casa a quantidade de café que eu quero, com um prazo de validade aceitável.
Nisto perdi quase uma hora. E nunca mais descubro um sítio para fazer Yoga, já que neste estado não posso fazer Body Combat. Acho que dar murros e pontapés no ar me ia fazer muito bem depois de ir às compras.
Porque é que quando estou sozinha com eles me despacho sempre muito mais depressa do que quando as tarefas da rotina matinal são partilhadas??
Eu nem sou de grandes pedidos (ou melhor, peço mas ninguém me dá ouvidos...) Assim, e uma vez que não fiz wishlist para o Natal nem para o 11 de Janeiro, seria muito fixe se alguém que ande pelos lados de Abu Dhabi (essa bela localidade) se dirigisse ao IKEA mais próximo para comprar coisas giras e em conta para o quarto do António. A saber:
- Hensvik cot bed (a que encomendámos é enorme, tem um tamanho de colchão fora do standard, apurei hoje, e foi mto mais cara - podíamos cancelar a encomenda ou encomendar o ovo da Maxi Cosi em substituição disso)
- Textêis para a cama (edredon, lençóis, resguardos para o colchão e para as grades)
- Trocador Sniglar
- Uma banheira
- Mesa de "trabalho" para o Afonso e para a Francisca
E tudo o mais que visses que faz falta aqui por estas bandas (talheres para eles, copos de plástico, individuais de plástico, aqueles sistemas de arrumação para os armários, toalhas de mesa...)
Como trazer tudo isto para o Bahrain? Não sei. (também não me peçam para pensar em tudo, bolas!)
Em alternativa e como ainda vamos a tempo e o Natal é quando um homem quiser, também podes trazer AQUELA CH e/ou um relogiozinho catita...
Opções não faltam...
Hoje fiz uma coisa, ou melhor, comprei uma coisa que viola completamente os meus princípios firmes e valores morais sólidos: comprei uma mochila de princesas à miúda. Ela, que nunca tinha visto coisa tão brilhante nesta casa (e ainda por cima, para ela e só para ela) ficou histérica de alegria. A mochila é uma coisa medonha, brilhante até dizer chega, ou não fosse direccionada para este mercado do Golfo, tão adepto de tudo o que brilha.
A verdade é que não tive alternativa. Ou era com brilhantes das princesas da disney ou era com brilhantes da Hello Kitty, opção 2 vezes mais cara. Já que é para ter brilhantes, ao menos que não se gaste muito dinheiro com isso.
Agora, a questão que me preocupa é o enorme retrocesso que pode ter acontecido hoje nesta casa: abri o precedente. Será que mais alguma vez poderei recusar roupas e acessórios brilhantes sem que seja acusada de incoerência? Não sei. Logo vejo. Hoje a Francisca adormeceu feliz.
Recuo uns anos e penso em mim quando tinha a idade dela (talvez mais velha, que esta malta de hoje é mais precoce). Eu adorava coisas que brilhassem. Aliás, cheguei a sonhar durante uma estação a fio com umas sabrinas douradas que havia na Sapataria Bambi (ou na Alcizete? Não me lembro...). Graças a Deus a minha mãe teve o bom senso de nunca mas comprar. Mas se as tivesse tido, teria ficado com certeza muito mais feliz do que com aqueles sapatos de carneira que insistiam em calçar-me (e que hoje não dispenso para a Francisca).
And counting. Pois é, Janeiro já passou da metade e este bebé, cada vez maior, está a cada dia que passa mais presente nas nossas vidas. Já tem cama, espreguiçadeira e daqui a uns dias será a vez de lhe comprar a cadeirinha para o levar no carro.
Post mais ou menos em jeito de resolução de ano novo. Estou farta de olhar para trás e achar que o que tinha era melhor que o que tenho hoje em dia. Não quero estar permanentemente insatisfeita. Estou cansada daquele sentimento tipo Variações de que só estou bem onde não estou e só quero ir onde não vou. Sei que isto só depende de mim e por isso quase que me apetece pôr este post no cabeçalho do blog ou no alarme do telemóvel para todos os dias me lembrar disto. Vivo no deserto. É verdade. No meio de gente pouco civilizada cujas noções de democracia ou direitos humanos ficam muito aquém do que se considera razoável. Ok. Os miudos não andam completamente felizes na escola e têm saudades de casa. É normal, passaram só 3 meses e ainda estamos todos a ajustar-nos. A verdade é que em Portugal passava a semana sozinha com eles porque o Francisco estava a mais de 300 km de distância, trabalhava num sítio onde não me sentia realizada e os miudos passavam quase 10 horas por dia na escola. Também não era ideal. Aqui estamos todos juntos, com muito mais tempo uns para os outros. O Francisco viaja imenso, é verdade, mas as semanas que aqui passamos com ele são completas: trabalha das 9 às 5 e temos tempo uns para os outros. Isso deixa-me feliz. O António vai nascer num país onde não percebo muitas das coisas que me dizem, em que a maioria dos médicos provém de países que não têm grande fama pela sua qualidade de ensino, onde provavelmente vai ser uma salganhada dos diabos para o registar como cidadão português e fazer-lhe um passaporte. Mas vou ter uma licença de maternidade até me apetecer. Vou estar com ele a 100% na fase mais importante do seu desenvolvimento. Vou poder matar saudades da minha casa portuguesa e dos amigos e família duas vezes por ano se essa for a vontade de todos. E qualquer dia vou conseguir chamar a este sítio, ou qualquer outro onde estejamos, CASA. Porque a minha casa é onde todos estivermos, juntos e em família.
Coitadinha de ti, Mãe. Agora a tua vida é só tratar de crianças, tratar de crianças. Ainda por cima em Março nasce mais uma. Coitadinha de ti, Mãe.
Olha, a partir de agora vou passar a chamar-te Vanda. É o teu nome; além do mais eu sou teu filho e tu não me chamas filho, chamas-me Afonso, que é o meu nome.
Montámos a árvore de Natal, pendurámos enfeites feitos pelos artesãos de palmo e meio, comemos doces, enchidos, bebemos vinho, estivemos com família, amigos e afins...
Foi bom. Custou-me muito voltar, mais do que pensava que ia custar. Para eles parece não haver diferença. O entusiasmo de andar de avião acho que os faz esquecer o que deixam para trás. Trouxemos brinquedos, presentes, roupas para o António. Só não trouxemos enchidos e vinho tinto na bagagem porque não cabia mais nada. Por falar nisso, verifiquei aqui à chegada que há pessoas piores que eu em termos de bagagens: uma família de 2+2 trouxe 8 (oito!!!!!) malas no porão e outras 6 (seis!!!) malas de cabine. Não sei como conseguiram trazer isto tudo com eles, mas fica aqui o registo, só para informar certas e determinadas pessoas que achavam que a quantidade de malas que trazíamos (1 mala de porão por pessoa e 1 de cabine por pessoa) era absurda.
A escola recomeça dia 10. Ano novo, escola nova.
A não ser que os Estados Unidos venham aqui para o Iémen combater a Al-Qaeda, que aí pomo-nos a milhas (ainda nós nos queixamos dos vizinhos espanhóis, chiça!) Aqui a vizinhança é composta por Arábia Saudita, Qatar, Irão, EAU, Kuwait e Irão... Por isso, sempre que pensarem mal dos espanhóis, lembrem-se desta vossa amiga.
Ainda não organizámos os horários, por isso temos acordado mais tarde do que o habitual e adormecido mais tarde, também. Amanhã pomos o despertador para ver se entramos no ritmo certo.
O António cá está. Grande para uns olhares especialistas, pequeno para outros. São tão comuns os esgares de espanto com a dimensão sobrenatural da minha barriga como os olhares espantados por estar já de 30 semanas (ai é que não parece nada, tão pequena que está essa barriga). Para mim é grande. Para as minhas costas também. A viagem de regresso já não foi confortável por causa da barriga. Quanto ao António propriamente dito, mexe-se imenso. Não sabe nem sonha a casa de loucos onde se vai enfiar. Acho que nestes últimos meses, em que já ouve melhor o que se passa cá fora, vai desconfiar da sorte que o espera. Leva muitos beijinhos dos irmãos. É aproveitar agora; parece-me que a boa vontade da Francisca está prestes a acabar...
a horta já tem direito a etiqueta e tudo
futebol mas só porque estamos em alturas